牡丹 - Botan
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"Botan" (Peônia) foi composta pela ex-iemoto da escola Seiha Hougaku, Yasuko Nakajima em 1968. Faz alguns meses que comecei a treinar essa música com Utanoichi sensei, e ele sempre me enfatizou entender o conteúdo da música para poder representá-la no palco.
De acordo com ele, sua avó quando escreveu essa música, queria transmitir as flores de peônia desabrochando. Na cultura japonesa e principalmente chinesa, a peônia é uma das flores mais reverenciadas e carrega uma carga simbólica impressionante, sendo frequentemente coroada com o título de "Rainha das Flores" (ou Kao 花王 - o Rei das Flores).
1. Nobreza, Elegância e Estilo Real
A peônia floresce no final da primavera com pétalas grandes, robustas e imponentes. Ela representa uma beleza que não pede desculpas por existir; é majestosa e altiva e é associada a fortuna, status social e reconhecimento, sendo usada em pinturas, tecidos nobres e celebrações oficiais para reforçar conquistas materiais e posição elevada.
2. O Ideal de Beleza Feminina
Existe um provérbio tradicional japonês muito famoso que descreve a postura e a graça da mulher ideal através das flores:
「立てば芍薬、座れば牡丹、歩く姿は百合の花」
Tateba shakuyaku, suwareba botan, aruku sugata wa yuri no hana
"De pé como uma paeonia lactiflora, sentada como uma peônia (botan), e caminhando como um lírio."
Diz-se que a peônia representa a mulher sentada porque a flor se abre de forma volumosa, elegante e estável, transmitindo uma sensação de dignidade, quietude e graça profunda.
3. A Dualidade entre Força e Delicadeza (O Leão e a Peônia)
Na arte clássica e na tatuagem tradicional japonesa (Horimono), a peônia é quase sempre emparelhada com o Karajishi (o leão mitológico guardião). Essa combinação é conhecida como Karajishi Botan (唐獅子牡丹).
O leão representa o ápice da força selvagem, do poder e da coragem masculina.
A peônia representa o ápice da beleza, da sensibilidade e do refinamento.
Juntos, eles simbolizam o equilíbrio perfeito entre a ferocidade e a elegância, sugerindo que o verdadeiro poder deve ser acompanhado de sensibilidade artística e integridade espiritual.
4. Transitoriedade e o "Coração Disperso"
Apesar de sua imponência, a peônia tem uma vida de floração curta (geralmente de 7 a 10 dias) e as suas pétalas caem de forma inteira e súbita. Esse contraste entre o ápice da beleza e a fragilidade da vida evoca o conceito estético japonês do Mono no Aware (a impermanência das coisas), assim como a cerejeira (Sakura).
Letra e tradução
そよ風に くずろともせんなや 白い炎と
燃ゆる とも、よしなや
À brisa suave, não permitas que se desfaça
Ainda que arda em chamas, como um fogo alvo
Ah, que assim seja, em seu desalento
日茶の帯の、なげかひを知り候よ
Desse obi cor de chá, conheço o profundo lamento
花びらが象牙の夢をまた弾く 春の牡丹の 散り心よ
As pétalas voltam a tanger sonhos de marfim
Oh, o espírito que se dispersa na peônia de primavera
Analisando a letra, o poema captura perfeitamente essa essência cultural profunda:
"Mesmo que chamas brancas queimem graciosas..." "...as pétalas tocam novamente o sonho de marfim." “Oh, o coração disperso da peônia na primavera.”
O poema contrasta a intensidade visual da flor (as chamas brancas) com a melancolia de sua queda na primavera. É uma representação poética muito fiel à tradição japonesa: celebrar a nobreza e a paixão de um ideal, sabendo que sua beleza é efêmera.







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